James estava se mudando para
a Rua Hill, no vilarejo Silver Hall em uma cidadezinha nos arredores do sul da
Europa. Em parte não estivera feliz por estar migrando para o novo aposento, se
encontrava ali pela mãe.
Apenas.
A mãe sofria problemas
sérios de saúde e agora que passara dessa fase tão desastrosa, queria deixar a
mesma em um lugar calmo em que pudesse aproveitar mais a si mesma. A cidade em
que moravam anteriormente era enorme e barulhenta, tipicamente populosa e turística,
o que deixava a desejar a James, que sofria a cada surto epilético da mãe em
suas crises doentias.
Ele era um homem de mais de
trinta anos, formado, mas que desde há quase um ano vivia a vida da mãe e não a
sua. Sua mãe sofria de um grande mal, sofria de vários problemas de saúde e
chegava a convulsionar durante alguns minutos, surtar para então cessar e
voltar a si mesma. Era algo difícil e que o destruía aos poucos, mas que este
não aceitava desistir, afinal, era sua mãe. Faria o que fosse preciso, quando e
como fosse preciso.
Silver Hall era silencioso
até demais, chegava a tornar-se estranho. James não era acostumado a um lugar
tão calmo como este, ruas vazias, sem sinal de vida no derredor. A Rua Hill era
o complemento para o silêncio do pequeno vilarejo, as casas vitorianas se
alastravam pelos dois lados, jardins bem sujos e outros poucos limpos causavam
uma impressão de abandono ao local.
Ouvia-se apenas o som dos
pássaros que cantarolavam enquanto voavam e por fim desciam para se apascentar nos
galhos secos que contornavam o outono, a brisa era leve e era quase impossível
senti-la. Estava uma manhã nublada, abafada onde abatia um leve infortúnio em
James.
Dando breves pausas para
respirar, este carregava os vários pertences encaixotados para dentro da
residência, enquanto passava inúmeras vezes sempre observando o sofá no meio de
seu jardim mais que mal-cuidado. Selena, a mulher já de idade avançada,
retribuía o olhar do filho com despreocupação como se quisesse entender o que
este tanto a encarava, em seguida ela ria sozinha e balançava as pernas sem
parar olhando para as casas e todo o ambiente á volta.
James suspirou em resposta, ele
poderia gargalhar da mãe e juraria que ela apenas repetiria a ação como se tudo
fosse engraçado. Era difícil, às vezes ele queria entender e saber se ela ainda
era sua mãe e se não era o contrário, afinal, em tudo a mulher dependia dele
agora.
Levou um pouco mais de uma
hora para que ele levasse todos os pertences para dentro da pequena e antiga
casa, levaria talvez mais o resto do dia para retirar tudo das caixas e arrumar
tudo em seu devido lugar. Quando entrou levando a mãe, bufou ao sentir o cheiro
de mofo pairando no ar, observou as paredes um tanto encardidas e o assoalho
gasto sob seus pés.
— Estamos em casa, mamãe.
Enfim em casa.
Ergueu as sobrancelhas em
contestação por um instante, já querendo voltar pela porta á suas costas e entrar
no carro seguindo de volta ao seu verdadeiro lar. Seu dinheiro dera para
adquirir exatamente aquela casa, nunca teria o lindo imóvel que possuía longe
dali, não teria mais nada. Só a mãe e o silêncio e talvez os vizinhos que até
agora não deram as caras. Seria cedo demais?
Passara o resto da tarde e a
noite descansando, o suficiente para que renovasse suas forças depois de um dia
tão cansativo e melancólico. Estava em um sono profundo, sabe lá sonhando o
que, talvez nada, mas fora interrompido por um estampido alto que invadiu a
casa provocando um eco perturbador.
James no mesmo instante se
levantou de um salto tateando a cômoda para se apoiar e em seguida acender a
luz do quarto, o local se iluminou no segundo seguinte e revelou o ambiente
pesado e estranho que era a casa. Calçou seus sapatos e saiu se arrastando pelo
corredor estreito, passando por quadros de paisagens que já estiveram ali
quando chegara, logo depois agarrou o molho de chaves e escancarou a porta
vagarosamente.
Só se ouvia os sons dos
grilos e outros insetos ao céu, a rua era um breu e estava bem frio, quando ele
olhou para a direita e para a esquerda só viu escuridão. À esquerda, um ou dois
carros estavam estacionados em frente às casas, o esguicho estava ligado em um
jardim à direita e do outro lado da rua lá estava uma cena peculiar. Uma luz
tomou conta do hall de entrada da casa à sua frente. Uma mão atrás da porta
correu pelas cortinas e as puxou de modo tão vagaroso que se não estivesse
olhando fixamente poderia nem ter notado.
Então uma mulher com olhos
escuros e o rosto lívido e estranhamente repleto de tristeza encarava-o com
apenas metade do rosto exposto na vidraça da porta.
Sentindo-se desconfortado,
ele voltou-se para a porta e já ia atravessando a sala quando ouviu novamente o
barulho chegando até seus ouvidos. Era alto, estranho, parecia o som de algo
batendo fortemente contra o chão, se arrastando, fluindo e estremecendo pela
escuridão. James parou onde estava e ouviu atentamente.
— Jay...
Sentiu os pelos de seus
braços eriçarem e seu corpo estremecer enquanto ouvira a voz fraca, rude e
antiga correndo por todo o lugar. Achou que não era só ele que ouvira, a
primeira ação foi olhar para o outro lado da rua, mas as luzes já estavam
apagadas e ele estava sozinho no meio da noite. Estaria louco?
Jay era seu apelido de
infância batizado por sua mãe, ela usara até alguns anos atrás, enquanto ainda era ela mesma. Não eram muitos os que
conheciam o apelido, isso se resumia apenas à Selena.
Selena.
Ele correu para dentro de
casa, atravessou a sala, a cozinha, o corredor estreito e correu para o quarto
dos fundos, saiu esmurrando a porta de madeira à sua frente e olhando para todo
o lugar ofegando estando totalmente amedrontado. Estava vazio, o lençol na cama
estava desfeito. Ela estivera ali,
mas onde estava agora?
— Mãe! — James gritou
instantaneamente. Correu até o banheiro, para o jardim nos fundos, mas nada.
Ela não estava ali.
Foi quando ele voltou para a
entrada e saiu correndo pela rua sem saber para onde ir, sussurrando,
chamando-a, mas não querendo despertar os vizinhos que mal conhecia. Se é que
existia algum.
Ele não estava em forma,
ofegava e resmungava de raiva enquanto continuava a seguir até o fim da rua
acompanhando o som que agora era mais alto.
— Jay... Jaaay... Ja...
Quando se dera conta já
estava em um jardim de grama amarelada, mas era úmido o chão sob seus pés e
seus sapatos se perdiam na terra que se desmanchava e que agora ele pensava que
esta fosse o engolir. O grito ficou mais forte enquanto olhou para seus pés,
levantou-os para se livrar do líquido espesso que o puxava. Era escuro, grosso
e... vermelho como sangue.
Era sangue, muito sangue.
No exato momento em que vira
que era realmente isso o terror o invadiu, suas pernas tremeram e começou a
cambalear e recuar para a rua caindo de costas no asfalto. Soltou um gemido
quando seu corpo tocou o chão, levantou como se dependesse disso para viver e
saiu correndo de volta para o caminho pelo qual viera.
Sentiu alguém o seguindo,
acompanhando seus passos fortes enquanto corria, a força o perseguia e era
perturbadora. Sua vista escureceu e o coração bateu tão forte em seu peito. Ele
estava no chão novamente e tudo se dissolvia em escuridão.
Seus olhos se abriram,
sentias as pálpebras pesadas e o corpo parecia ter sido atropelado por um
caminhão. Ergueu-se vagarosamente querendo lançar o despertador janela afora
enquanto dava um passo de cada vez para fora da cama.
Perdeu-se por um momento em
seus pensamentos e parou boquiaberto relembrando a noite anterior, sentia uma
pontada forte ao lado esquerdo da cabeça enquanto colocava a mão no rosto.
— Não...
Olhou para o chão e encarou
seus pés, estavam vermelhos e sujos, repletos do que na noite ele vira que era
sangue e agora estava seco na sola e também por todo o quarto no chão.
— Porra.
Não conseguiu discernir nada
do que acontecera, seu primeiro ato foi correr para o banheiro e ficar por lá
por quase meia hora sentindo a água morna caindo lentamente por seu corpo. Logo
depois, preparava-se para correr novamente para o quarto da mãe e enlouquecer,
mas ela estava na sala apenas sentada em sua cadeira de descanso enquanto
tricotava e via TV.
Respirou mais calmo jogando
a toalha por trás do pescoço e seguindo para o quarto. Em alguns minutos limpava
a sujeira deixada pela noite confusa observando as pegadas seguiam da beira da
janela até sua cama.
O dia não poderia ter sido
mais tenso para James, mas a noite chegara espreitando tenebrosamente
guardando-lhe o pior. Acordara no meio desta urrando de dor, com a roupa
ensopada de suor e ainda ouvindo o mesmo som.
Talvez fosse tolo ao
insistir, entretanto, ele precisava entender o que estava acontecendo naquele
lugar e quando ele atravessara os cômodos para verificar o quarto da mãe,
novamente ela não estava lá.
Fora assim que voltara a
correr pela rua deserta, agora sem medo gritando pela mãe, mas ninguém saiu na
calçada ou luz alguma se acendeu nas varandas, era como se ele estivesse
esquecido naquele lugar.
Esperava por ouvir a voz o
chamar novamente, derrubando a máscara para lhe revelar que ele não estava
delirando ou sonhando e tudo estava realmente acontecendo. Não houve voz, mas
um titubar constante se elevava no imenso silêncio, era contínuo e muito alto,
parecia muito com um sino.
Era um sino.
Começou a seguir o som, uma
vez cambaleando, outra vez se amedrontando a cada passo para dentro do lugar
desconhecido. As árvores eram gigantescas e sem folhagem alguma, mais pareciam garras
prontas para destroçá-lo no longo caminho que era tortuoso.
Agora ele não estava
sozinho, sabe-se lá de onde, pessoas começavam a entrar na trilha e ir para
além da ruazinha seguindo para uma área florestal ainda mais horrenda.
— Aonde vocês vão! Onde está
ela?! — gritou James para todos que passavam ao seu lado deixando-o
despercebido.
Homens que vinham em grupo
simplesmente empurraram-no do caminho e seguiram juntos das outras pessoas, o
ignorando totalmente.
E então ele viu, ao longe,
há metros dali, o grupo que arrastava uma mulher idosa e fraca, os pés desta se
arrastavam pelo chão deixando uma trilha na terra. Era sua mãe Selena.
— Larguem-na!
Ele gritou, mas algo logo o
acertou pelas costas e então sentiu o corpo se entregar a inconsciência.
James levantou-se
desesperado, a respiração rápida e os olhos procurando uma saída imediatamente.
Seu rosto estivera colado à úmida terra, a mata crescia à sua volta e ele
sentia-se perdido em meio ao número enorme de árvores.
Ele fora nocauteado no meio da trilha, não havia mais pessoas por ali, mas estavam por perto, afinal, podia ouvir o som alto da junção das vozes de centenas de pessoas.
Ele fora nocauteado no meio da trilha, não havia mais pessoas por ali, mas estavam por perto, afinal, podia ouvir o som alto da junção das vozes de centenas de pessoas.
Sua primeira reação foi
voltar a correr seguindo as vozes para dentro da enorme floresta. Tropeçava em
galhos secos, ralhava quando seus pés pareciam ser agarrados por garras que na
verdade eram plantas secas e estranhas. Deu um salto para avançar diante de um
enorme tronco podre e escuro em seu caminho e acabou por atravessar um manto de
folhagens secas.
Olhara o redor e seu corpo
endureceu, não conseguia mexer um músculo sequer, o medo o contaminara. O
espaço era enorme e limpo, um círculo gigante que mais parecia um enorme
coliseu, o altar era de uma rocha escura e tinha metros de altura.
Havia manchas por toda a sua
estrutura, era sangue seco.
À volta do lugar eram
centenas de pessoas amontoadas, todas com mantos negros e olhares perturbados e
sombrios. Havia crianças, homens, mulheres e idosos, todos estavam ali. Ali que
estavam todos, todos os habitantes que ele não vira em Silver Hall.
E no grandioso altar uma
mulher com um enorme manto vermelho gritava palavras em uma língua estranha
enquanto erguia para o alto sua mão agarrada a uma adaga ensanguentada. Não era
tudo, atrás desta havia árvores grandes de galhos enormes que mais pareciam
ganchos e presos a elas havia corpos, muitos corpos.
A maioria eram mulheres
penduradas e havia uma ou duas crianças à vista. James encarou com um olhar
profundo e repleto de medo, os olhos dilatando ao ver a chocante cena e então
ele viu por fim.
Seu corpo desmoronou de
joelhos sobre a terra no mesmo instante, sua querida mãe Selena estava no chão
do altar. Estatelada, pálida e fria. Sua jugular fora retalhada e suas roupas
estavam ensopadas de sangue enquanto seus olhos encaravam o além, talvez bem
longe dali.
— Não!
James se aproximou ainda
mais, juntando forças para continuar de pé, as lágrimas escorriam e seu corpo
entrava em choque.
— Ora, ora, Jay. Vai querer
juntar-se a ela? — entoou a mulher no altar rispidamente com um sorriso
travesso no rosto. Ela possuía uma aura estranha e possessiva, seu rosto era
obscuro e em instantes apresentava a pele clara e outro instante já se
habituava a uma pele cadavérica de olhos vermelhos e uma língua serpenteando em
sua boca.
Era monstruoso.
— O que você é? — gritou James
entredentes com absoluto medo.
— Eu sou o que eu quiser. —
gargalhou diabolicamente a mulher, sua língua voltou-se anormalmente passeando
por seu rosto em ângulos anormais— Se quer viver, suba aqui e me dê o coração
de sua amada mãe.
James a encarou sem desviar os olhos por
nenhum segundo enquanto ela descia o braço e deixava a mão aberta com a adaga
em sua direção. Sua vida passou diante de seus olhos e não sabia o que fazer,
queria viver. Sua mãe já estava morta, não poderia trazê-la de volta.
O que seria mais válido? Sua
vida ou a alma não violada de sua mãe?
Neste momento ele talvez
tenha feito a escolha errada que se arrependeria pelo resto de sua vida caso
vivesse, mas não queria terminar ali, não agora. Selena talvez tivesse dias
depois deste dia ou até um ano, mas ela não duraria muito mais, não do modo que
vivia.
O pesar o tomou quando ele
caminhou com passos trêmulos até a mulher subindo a pequena escadaria feita por
restos de rochas, parou por um instante e então arrebatou a adaga da mão asquerosa
e agora escura.
— Boa escolha, James. — ela
mostrou um sorriso de dentes amarelos e sujos que deixavam claro o que parecia
resquício de sangue e carne. Ele não soubera dizer, apenas deduzira pelo forte
odor que tomou conta de suas narinas.
— Entretanto, — ela
continuou a falar e James sentiu-se tonto apenas de ouvir sua voz— até mesmo
aqui, não são aceitos traidores do próprio sangue. STEVE! — gritou ela, um dos
homens atrás desta que cobria o rosto com uma grande cabeça animalesca com
galhadas apenas se aproximou e agarrou a adaga que agora James notara o
estranho nome estampado nesta, ele desconhecia o mesmo.
Quemós
— MATE-O!
James não soube o que sentir
naquele momento, apenas deu às costas e saltou de cima do altar. Suas pernas
bateram com força contra o chão e então rolou para o lado, rapidamente se
levantou cambaleando e tropeçando enquanto correu para a perdição em meio à
floresta.
O homem, que parecia
inumano, corria em sua encosta com sua enorme cabeça e galhadas escorrendo
sangue e um líquido negro enquanto balançava de um lado para o outro apertando
a adaga em uma mão e na outra segurando um facão afiadíssimo.
Passava entre as árvores se
desvilhenciando de galhos que o prendiam, saltando pedras e tirando fôlego e
força da onde já não existia mais. Mas o demônio, criatura — seja lá o que
fosse aquele ser com cabeça de animal— continuava correndo sem pestanejar ou
cansar.
— Me deixa em paz!
A criatura pareceu o ignorar
e ganhava ainda mais velocidade, enquanto este já tropeçava e rolava pela mata,
se arrastava pelas daninhas secas que se alastravam pelo chão úmido. Tentou
respirar, mas novamente já se jogava na trilha correndo e a criatura agora
estava mais próxima.
Voltou-se para trás olhando
pelo canto dos olhos a cada segundo para medir a distância do perseguidor, sua
boca abriu-se em negação ao observar a cena...
O facão alçou voo com uma
força descomunal, tentou se jogar, rolar, mas fora rápido demais e fora
acertado com uma imensa força que o derrubou no chão. Seu rosto bateu com uma
imensurável força enquanto ele sentia instantaneamente seu nariz sangrar, um
líquido quente escorreu por suas costas enquanto ele desfrutava de um profundo
queimar que parecia consumir cada célula de seu corpo. Gritou sem se preocupar
com mais nada, a dor era tudo enquanto seus olhos lacrimejavam e seu corpo todo
se contorcia no sentimento destruidor.
Barulho de passos ficaram
claros gradativamente, James tremia de medo enquanto podia ver a enorme sombra à
suas costas, o perseguidor se curvou sem soltar uma palavra sequer e postou-se
a puxar de uma só vez o facão que perfurara profundamente a carne do homem.
— Você não foi nada e não
seria o primeiro egoísta a morrer e nem o primeiro a sobreviver em Silver Hall.
— sussurrou o perseguidor desabafando com uma voz rouca, fria e cortante.
James encarou-os com os
olhos paralisados enquanto gritava e urrava de dor, em seguida acompanhou o
vulto do objeto descia e não viu nada além de sangue espirrando por todo o
lugar enquanto sentia sua existência esvair-se de si.
Quemós,
conhecido como estrela negra, é um deus pagão ainda adorado muitas pessoas na
tradição judaica. Deus que exige apenas sacrifícios humanos para obtenção de
poder e riqueza. Aqueles que acreditam e o adoram dariam suas vidas para
agradá-lo, levando então a vida de crianças, mulheres, homens e qualquer alma que
ouse atravessar seu caminho nesta terral.
0 comentários:
Postar um comentário